Sophia de Mello Breyner Andresen

As ondas desenrolam os seus braços E brancas tombam de bruços.
No mar passa de onda em onda repetido O meu nome fantástico e secreto Que só os anjos do vento reconhecem Quando os encontro e perco de repente.
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim. A tua beleza aumenta quando estamos sós. E tão fundo intimamente a tua voz Segue o mais secreto bailar do meu sonho Que momentos há em que eu suponho Seres um milagre criado só para mim.
Um pálido inverno escorria nos quartos Brancos de silêncio como a névoa Um frio azul brilhava no vidro das janelas As coisas povoavam os meus dias Secretas graves nomeadas
Minúncia é o labirinto: muro por muro Pedra contra pedra livro sobre livro Rua após rua escada após escada Se faz e se desfaz o labirinto Palácio é o labirinto e nele Se multiplicam as salas e cintilam Os quartos de Babel roucos e vermelhos Passado é o labirinto: seus jardins afloram E do fundo da...
Um brilho de azulejo e de folhagem Povoa o palácio que um jovem rei trocou Pela morte frontal no descampado   Ele não quis ouvir o alaúde dos dias Seu ombro sacudiu a frescura das salas Sua mão rejeitou o sussurro das águas   Mas o pequeno palácio é nítido -  sem nenhum fantasma...
Dois cavalos a par eu conduzia Não me guiava a mim mas meus cavalos   E no país de espanto e de tumulto Em mim se desuniu o que eu unia
Tua face taurina tua testa baixa Teus cabelos em anel que sacudias como crina Teu torso inchado de ar como uma vela Teu queixo redondo tua boca pesada Tua pesada realeza Teu meio-dia nocturno Tua herança dos deuses que no Nilo afogaste Tua unidade inteira com teu corpo Num silêncio de sol...
A nudez dos pés que o escultor modelou com amor e minúcia Mostra a pura nudez do teu estar na terra A longa túnica em seu recto cair diz o austero Aprumo de prumo da tua juventude O pulso fino a concisa mão divina dizem O pensamento rápido e subtil como Athena E a vontade sensível e serena: A ti...
Noite diurna Até à mais funda limpidez do instinto Sob os teus cabelos em anel sombra vinha   Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha O quase imóvel fogo dos teus beiços Pesa como o fruto pleno no rumor da brisa da árvore   Porta aberta para toda a natureza É através...
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